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domingo, 7 de novembro de 2010

Teste e classificação vocal

O processo de seleção e classificação vocal basicamente envolve duas etapas. Na primeira, realizam-se tarefas que permitem verificar a percepção auditiva, nos seus aspectos rítmicos, melódicos e harmônicos. Na segunda, analisam-se diversos parâmetros, dentre os quais, a extensão, a tessitura e o timbre. Tais elementos devem ser observados em conjunto, pois concebê-los isoladamente não é um procedimento adequado. Utilizar a extensão como único critério de avaliação pode comprometer a análise vocal, porque as vozes tecnicamente limitadas poderão ser classificadas de forma equivocada em virtude das referências associadas a esta ou aquela categoria vocal. Além de observar os limites graves e agudos da voz, a classificação deve ser feita com base no timbre de cada cantor.

A mudança de registro também oferece elementos significativos e, nesse caso, a identificação exata das notas que estabelecem tais fronteiras pode servir como uma referência auxiliar, corroborando com outros parâmetros já analisados. Certamente este é um dos pontos polêmicos na área do canto, pois as opiniões são diversificadas quanto ao significado e quantidade dos registros vocais. Fundamentalmente, o regente deve perceber quando ocorre a transição do registro grave para o médio (primo passaggio) e do médio para o agudo (secondo passaggio), bem como a zona de passagem intermediária entre estes.

O regente, ao apreciar a voz de um cantor, precisa perceber toda a potencialidade latente e antecipar, de certo modo, o vir a ser desta voz, isto é, a forma como se apresentará após o desenvolvimento de um trabalho técnico eficaz. Somente a continuação do trabalho vocal permite confirmar ou não a classificação inicial e, por isso, nenhuma classificação vocal pode estabelecer um veredicto permanente, imutável, pois a voz, ao ser (re)educada, passa por muitas transformações, sendo essencial, nesse caso, não rotulá-la com uma nomenclatura específica, mas guiá-la ao longo de um estudo que favoreça o desenvolvimento máximo sem fadiga. É função do regente e/ou do professor de canto ou técnica vocal acompanhar esse processo, porque uma classificação errada, associada ao uso inadequado numa região que extrapola a tessitura mais cômoda e conveniente, pode estimular e favorecer o surgimento de problemas vocais.

É imprescindível, portanto, observar os procedimentos deste processo e avaliar precisamente a voz de cada cantor, tomando sempre como referência a singularidade que lhe é inerente. Além dos fatores técnicos, é indispensável acrescentar outras informações relativas ao perfil psicológico, social e cultural de cada indivíduo, procurando perceber como ele constrói os seus modelos e a imagem vocal que tem de si mesmo. Sugiro ler também o texto A prática coral LGBTQI+ para ampliar a discussão. O momento no qual o regente seleciona os seus cantores é uma das etapas mais importantes da prática coral, pois é nesta ocasião que é definido o DNA da sonoridade de um grupo.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O gesto, o corpo e o som.

A expressão gestual do regente é uma ferramenta importante no processo de interpretação musical e está diretamente ligada à consciência e controle dos movimentos corporais. O desenvolvimento da técnica gestual deve aliar, ao domínio dos gestos padrões, aspectos que traduzam a individualidade do regente sem, contudo, priorizar os últimos em detrimento dos primeiros.

A postura mais adequada à regência deve ser determinada de acordo com o biótipo de cada indivíduo e em consonância com as necessidades da obra interpretada e/ou do grupo dirigido. O regente deve equilibrar-se, mantendo os pés firmes no chão e as pernas levemente afastadas, enquanto os ombros precisam ficar soltos e frouxos, as mãos e os braços penderem livremente para baixo com o antebraço levemente erguido à altura do peito. Apesar da diversidade de orientações em torno das técnicas de regência, pode-se dizer que existem dois princípios gerais que orientam a atividade gestual do regente: o primeiro trata da independência dos braços, ou seja, é importante evitar, na medida do possível, que eles executem simetricamente movimentos idênticos; o segundo faz referência aos movimentos da mão direita (tactus) e da mão esquerda (expressão musical, agógica, dinâmica e/ou fraseológica).

O campo de trabalho do regente pode ser delimitado na região localizada entre o baixo ventre e os olhos. É relevante observar ainda que toda informação musical, seja no começo, no transcurso ou no final da obra, será reforçada por intermédio da conjugação entre gesto e expressão facial, recursos complementares imprescindíveis à concretização das intenções musicais. Para obter o grau de precisão e controle dos movimentos de forma ideal, é imprescindível, então, recorrer sistematicamente à força expressiva do olhar, pois, como Sérgio Magnani observa, os olhos chamam, estimulam, comunicam a cor desejada do som e sublinham os contornos da frase. Além disso, os olhos chamam outros olhos, mantêm desperta a atenção, estabelecem o contato humano e a empatia emocional.

Todo gesto preparatório deve indicar as principais características da composição, o tempo, a intensidade, a articulação, a expressão e o caráter. A intenção é necessária e antecede a criação dos gestos musicais e é por esta razão que o regente deve possuir um domínio soberano da representação mental da partitura, pois só assim será capaz de recriar em sua fantasia a imagem sonora ideal da obra. Neste sentido, Bernadete Zagonel, no livro O que é gesto musical, assegura que, de algum modo, cada partitura escrita necessita de uma partitura gestual que permite o nascimento da obra realizada. Assim, a exteriorização gestual deve ser, portanto, o resultado das representações mentais e da abstração da obra como um todo, e não simplesmente uma ação mecânica e automatizada por meio de padrões estabelecidos.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)